XVII

Menelau, no conflito percebendo
Que jaz Patroclo, a proteger seu corpo
Entre a vanguarda marcha erifulgúreo:
Qual gemente primípara novilha
Meiga cerca o filhinho, o louro Atrida
Pugnaz, de hasta e rodela, ameaça firme
A quem se apropinquar. Mas ante o morto
O galhardo Pantóides pára ousado:
“Vai-te, potente rei de Jove aluno,
Anda, abandona-me o cruento espólio;
A mim que, dos belígeros consócios,
O herói feri primeiro. A imensa glória
Tu não me impeças, ou te arranco a vida.”
Suspira o Dânao: “Que indecoro orgulho,
Satúrnio pai! Javardo nem pantera,
Nem leão, de natura truculentos,
Certo alojam nos peitos a fereza
Que respiram de Panto os guapos filhos.
O Équite Hiperenor, que fronte a fronte
Chamou-me o Aqueu mais fraco, sem dos anos
Lograr-se, creio, ao pé não foi dar gosto
Aos venerandos pais e à cara esposa:
Desgraça igual terás, se aqui me arrostas;
Escondido na turba, o fado evites.
O mal tarde os estultos reconhecem.”
Indócil torna Euforbo: “Ó fero Atrida,
Pagarás a ufania, o irmão defunto,
O recente seu tálamo viúvo,
Dos nossos pais o luto e mágoa infanda.
Por consolar a Panto e a nobre Frontis,
Essa cabeça e arnês eu lhes oferte.
Mas cessem moras; de provar é tempo
A quem assista o medo, a quem o esforço.”
Então, brandida, a cúspide recurva
Embaça no broquel. Porém o Atrida
Ora a Jove, e ao contrário, que recua,
A gola espeta; com robusto afinco,
Lhe afunda a ponta e o brando colo passa:
Ao fragoroso baque as armas fremem;
Como a das Graças, lhe salpica o sangue
De ouro e prata a madeixa entretecida.
Qual, se o colono a pálida oliveira
Em terreno alimenta solitário
Que em mananciais abunde, ela formosa
Viceja, e de alvas flores enfeitada
Balança a coma ao vário Eólio sopro,
Té que um pegão furioso a desarreiga
E esfolha a encova; assim virente Euforbo,
Em terra e exânime, é do arnês despido.
Quando sevo leão, criado em brenhas,
Rouba dos pastos a melhor bezerra,
Quebra a cerviz a dente, e lacerando-a
O cruor chupa e sorve-lhe as entranhas;
Zagais e cães de longe amiúdam gritos,
Mas descorado medo o pé lhes tolhe:
Assim Teucro nenhum tinha a coragem
De abalançar-se a Menelau sublime;
Que arrancara ao Pantóides a armadura,
Se ínvido Apolo, disfarçado em Mentes,
Cicônio chefe, repentino ao márcio
Priâmeo não clamasse: “Aqui persegues
A biga, Heitor, que humanos mal sopeiam,
Exceto Aquiles, de mãe deusa prole;
E o flavo Atrida, a proteger Patroclo,
O valor terminou do exímio Euforbo.”
Disse, e volta à batalha. A Heitor profundo
Nojo calou; de giro, encontra o jovem
Rubro humor a manar da atroz ferida,
E o Grego a despojá-lo: entre as fileiras
Trota, a estrugir agudo, eribrilhante,
Como Vulcânea chama inextinguível.
Ouvindo-lhe o estridor, o Atrida geme,
Fala à sua alma: “Se abandono o espólio
E o Menécio, que jaz pela honra minha,
Hão-de estranhar-mo Aqueus; a Heitor se arrosto
Só por vergonha, a gente que atrás segue
Do seu elmo êneo e vário, há de envolver-me.
Titubas, alma? A quem brigar se atreve
Dos Céus contra um valido, a ruína é certa.
E alguém me estranhará ceder ao homem
Que um nume guia? A voz de Ajax soasse!
Ambos, à divindade resistindo,
O caro morto menos mal seria
Restituirmos ao soberbo Aquiles.”
Neste comenos, já de Heitor à vista,
Solta o corpo; virando-se por vezes,
Como leão barbudo retrocede,
Que expulso a dardos e a ladridos e urros,
Invito e em sanha do curral se aparta.
Junto aos seus tem-se, busca em roda o grande
Ajax, que à sestra o peso atura todo,
E assombrados por Febo anima os sócios;
Direito a ele corre: “Ajax amigo,
Patroclo a defender nos apressemos;
Sequer seu nu cadáver tenha Aquiles,
Pois de Heitor galeato o arnês é presa.”
Comoto parte Ajax, e o flavo chefe,
Pela frente. A Patroclo já despido
Arrastando ia Heitor, para entregá-lo,
Decepada a cabeça, aos cães de Tróia;
Mas, perto Ajax com torreado escudo,
Ele à turba se acolhe, ao coche pula,
E em troféu à cidade envia as armas.
Do pavês cobre Ajax o herói defunto,
Como a leoa ampara os seus cachorros
Que em selva ataca chusma de monteiros.
E os olhos eferados revolvendo,
Os retrai às franzidas sobrancelhas.
Ao bravo Menelau, que o ladeava,
Recrescia no peito o luto acerbo.
Turvado o argúi o Lício Hipoloquides:
“Com esse garbo, Heitor, não vai teu brio;
És fugaz, e te exalta injusta fama.
Só com teus cidadãos cogita os meios
De salvar a Troiana sociedade:
Meus Lícios não terás. Que lucro houveram
Da constância e denodo em tantos riscos?
Há-de um guerreiro obscuro em ti fiar-se,
Quando preia aos Grajúgenas largaste
O camarada e hóspede Sarpédon,
Em vivo teu apoio e de Ílio esteio?
Nem dos cães te esforçaste a preservá-lo!
Ouçam-me, e a casa voltaremos todos,
E Ílio embora desabe. Aos Teucros falta
O coração dos que ousam pela pátria
Sofrer trabalhos e afrontar perigos;
Aliás, Patroclo a rojo aos celsos muros
De Príamo subira, e as pulcras armas
E o nosso rei tivéramos, em troca
Do Aqueu fortíssimo ante as naus prostrado,
Fâmulo caro do espantoso Aquiles.
Mas de Ajax te amedrontas; quando o encaras,
Pois vence-te em valor, desapareces.”
Indignado o Priâmeo: “Altivo e agro
Me insultas, Glauco? Amigo, o mais prudente
Eu te julgava da glebosa Lícia;
Mas ora insano de tremer perante
O grande Ajax me acusas. A peleja
Nunca assustou-me, ou dos corcéis o estrépito;
Sujeito-me do Egíaco à vontade,
Que audazes afugenta e a glória tira
Ao próprio que instigou. Tu fica, observa
Se em todo o dia fraco sou, qual pregas,
Ou se a qualquer Argeu, por mais valente,
Arredar sei do corpo de Patroclo.”
Presto bradou: “Sede homens, Lícios, Teucros,
Do vosso ardor, ó Dárdanos, lembrai-vos;
No entanto, visto o arnês do exímio Aquiles,
Por mim saqueado ao bélico Patroclo.”
Da liça lagrimosa então saindo,
Corre aos que a Ílio santa o arnês levavam;
Alcança-os breve; manda o seu, que muda
Pelo de Aquiles, imortal presente
Feito a Peleu; do velho dado ao filho,
Que o não trará por certo na velhice.
Jove de parte o viu cingindo as armas
Divinas, e a cabeça meneando,
Falou consigo: “Ai! Longe a morte cuidas,
E ela te acerca: do que tremem todos
Revestes a armadura, e o forte e ameno
Amigo seu matando, sem decoro
Dessa armadura mesma o despojaste.
Mas vou de glória encher-te, em recompensa
De não voltares: triste! À esposa tua
Nunca apresentarás o arnês de Aquiles.”
Anui e arqueia as pretas sobrancelhas,
A Heitor adapta o arnês; Mavorte horrendo
Lhe exalta o brio e os membros lhe vigora.
Ei-lo os mais feros busca; eri-esplendente
Semelhando ao magnânimo Pelides,
Se dirige a Medon, a Glauco e Mestles,
A Asteropeu, Tersíloco, Hipotoo,
Disinor, Fórcis, Crômio e Enomo vate,
E clama e exorta: “Ouvi-me, inútil bando
Cá não chamei das convizinhas tribos,
Sim fiel gente que dos Gregos duros
Nos defenda as mulheres e os meninos.
Por sustentar seu zelo, esgoto os povos
De víveres e dons; cumpre que ousado
Cada qual morra ou vença: é lei da guerra.
Quem a Ajax repelir e aos muros Teucros
Rojar Patroclo, de metade logre
Do espólio todo, iguale-me na glória.”
Disse; em coluna, de hasta em reste, avançam
Contra os Aqueus, e ao Telamônio esperam
Arrancar o cadáver. Insensatos!
Ele é que há de arrancar a vida a muitos
Sobre o cadáver; mas primeiro exclama:
“Querido Menelau, de Jove aluno,
Escaparmos não conto. Hei grande medo
Ceve em Tróia o Menécio a cães e abutres,
Quanto por mim receio e por ti mesmo:
Heitor, bélica nuvem, tudo envolve;
Negreja o nosso derradeiro dia.
Eia, os mais fortes chama: oh! Se te ouvissem!”
Pronto o guerreiro Menelau vozeia:
“Chefes Aquivos, príncipes e amigos,
Os que bebeis à mesa dos Atridas,
E honrados sois de Jove e regeis povos,
Do conflito no ardor mal vos distingo,
Mas indignados vinde; a todos peje
Ser escárnio o Menécio a cães de Tróia.”
Súbito Ajax de Oileu, por entre as alas,
Se precipita, e o rei Cretense e o pajem,
Rival de Marte, Merion cruento.
Quem poderia recordar os nomes
De Graios tantos que a peleja instauram?
Heitor condensa as tropas e arremete:
Como, de um rio à foz por Jove inchado,
Mugem contra a corrente as salsas ondas
Que o mar vomita à praia; assim dos Teucros
Muge o clamor. Num ânimo os Aquivos,
De êneos escudos a Patroclo muram,
E névoa em torno aos coruscantes elmos
Lhes derrama o Satúrnio, que o prezava;
A defendê-lo excita os companheiros,
Pois odioso lhe era aos cães de Tróia
Deitado ser o fâmulo de Aquiles.
Olhinegros Aqueus primeiro o corpo
Trépidos abandonam, sem que os toquem
Ávidas lanças dos bizarros Teucros.
O morto iam rojando, e a poucos passos
Acorre o Telamônio, que no aspecto
E gentis feitos superava os Dânaos,
Exceto o divo Eácida: à maneira
De javali, que em montes perseguido,
Virando-se entre a mata impetuoso,
A molossos dissipa e a caçadores;
Rompendo o grande Ajax pelas fileiras,
Fácil espanca Ilíacas falanges,
Que a Patroclo circundam, na esperança
De arrastá-lo à cidade e alcançar glória.
Filho Hipotoo do Pelasgo Letos,
Para agradar aos Frígios e ao Priâmeo,
Liga o talim do tornozelo aos nervos,
Entre o barulho o tira; eis, não valendo
Muitos que o desejavam, pela turba
Salta Ajax, o elmo aêneo lhe atravessa,
E o da forçuda mão fulmíneo bote
Fende o cocar eqüino, e pelo encaixe
Do hastil espirra o cérebro sangüento.
Soltando o pé do herói, desfalecido
Sobre o cadáver se estirou de bruços,
Longe da alma Larissa, aos pais ah! nunca
Há-de pagar terníssimos cuidados,
Pois gume atroz cortou-lhe os breves dias.
Darda Heitor contra Ajax, que atento esquiva
O resvalante golpe, mas o emprega
No Ifítio Esquédio, exemplo dos Focences,
Que em Panopeia alcáçar tinha vasto
E em muitos imperava: a brônzea ponta
Dá no pescoço e do ombro sai por cima;
Na queda ronca o arnês. Ao Fenopides
Fórcis, que de Hipotoo contendia,
Ajax rompe a couraça e pelo ventre
A cúspide lhe embebe nas entranhas;
De palma em terra o belicoso arqueja.
A vanguarda recua e o Teucro chefe;
Em grita os Gregos, a Hipotoo e Fórcis
Os corpos rojam, da armadura despem.
E os de Ílio ignavos abrigar-se iriam,
A vitória os Grajúgenas obtendo,
Mau grado a Jove, por virtude própria,
Se a Eneias não desperta o mesmo Apolo,
Em figura do Epítides Perifas,
Que arauto envelhecera ao pé de Anquises,
E por sábio e sisudo era afamado;
Perto lhe fala: “De que modo, Eneias,
Vós contra um nume salvaríeis Tróia?
Emulando os heróis que eu via outrora,
Em seu denodo e em seu valor seguros,
Na intrepidez de numerosas tropas:
Jove antes é por nós que pelos Dânaos;
Mas fugis aterrados, sem pugnardes.”
Olha Eneias, conhece o Argenti-archeiro,
E a voz desprega: “Heitor e auxiliares,
Que desdouro é cobardes retornarmos,
Repulsos dos Aquivos! Ora acaba
De revelar-me um deus que o Padre sumo
Será por nós. Comilitões, coragem!
Direito aos Gregos; em sossego ao menos
Eles às naus Patroclo não recolham.”
Fora eis avança e pára, e assim que os Teucros
Voltam face, a Leócrito lanceia,
De Arisbas filho; o bravo rola e expira.
E logo o camarada Licomedes
Encarna impetuoso o pique ardente
No fígado por baixo do diafragma,
De Apisaon Hipáside, e o prosterna:
Da ubertosa Peônia digno chefe,
Depois de Asteropeu, mais se estremava.
O márcio Asteropeu rompe sentido
A provocar os Dânaos, mas debalde;
Eles, Patroclo a rodear, em pinha
De lanças e broquéis lhe fazem muro.
De fileira em fileira, Ajax proíbe
Sair das linhas e deixar o morto;
Firmes ordena todo o choque esperem.
Roxeia o sangue; uns sobre os outros morrem,
O chão banhando, Lícios, Troas, Dânaos;
Mas destes menos, porque em massa lutam,
E com mútuo socorro se protegem.
Qual fogo o prélio ardia, e pela treva
Que o Menécio ocupava e os contendedores,
Creras extinto o Sol, extinta a lua:
Logravam-se os demais, em mole ataque,
De ar sereno e de claro esparso lume,
Campina e montes a brilhar sem nuvem,
E de longe e interruptos pelejavam,
Tiros mortais recíproco evitando;
Os mais fortes no centro, os afligiam
Caligem, dor, fadiga e sevo bronze.
Dois heróis todavia inda ignoravam,
Trasimedes e Antíloco, a desgraça
Do bom Patroclo, e acérrimo o supunham
Em meio do conflito, enquanto apenas,
Dos sócios prevenindo a perda e a fuga,
Distantes combatiam, por cumprirem
De Nestor os conselhos à partida.
Pelo companha do veloz Pelides
Cruel ferve o certame o dia inteiro,
Pés, joelhos e pernas, o cansaço
Afraca a todos, em suor escorrem
Sujas faces e mãos. Quando mandados
Servos, dispostos em redor, estiram
De enorme touro a gordurosa pele,
Puxam-no, até que, o leve humor purgando
E impregnada grossura, o couro espicham:
Assim, daqui dali num curto espaço
O cadáver puxando, uns esperavam
A Pérgamo levá-lo, outros à frota.
Cresce o tumulto; e, ao vê-lo, os aplaudira
Mesmo o feroz Gradivo e irosa Palas:
Tanto ali nesse dia áspero estrago
De varões e corcéis difundiu Jove!
Morto o amigo inda Aquiles não sabia.
Sendo ao longe a contenda e junto aos muros;
São das portas cuidava que voltasse,
Pois subverter a Tróia não podia,
Sem ele nem com ele: a mãe por vezes
Descobriu-lhe de Júpiter o arcano.
Ele então lhe ocultava o caso horrível
Ao seu mais caro sócio acontecido.
Lança a lança, incessantes se matavam.
Dizia um Grego: “É feio às naus voltarmos;
Primeiro, amigos, nos engula a terra:
Antes morrer que dar a glória aos Teucros
De rojá-lo à cidade.” E um Teucro: “Amigos,
Melhor é que nos dome a Parca a todos;
Ninguém mais o cadáver desampare.”
Assim, de parte a parte, se animavam.
Enquanto insistem, sobe ao céu de bronze
Pelo infrugífero ar rumor de ferro,
Os cavalos do Eácida arredados,
No pó sentindo o sólito cocheiro,
Obra de Heitor ferino, lagrimavam:
Já brando, já minaz, estala o açoute
O Diório Automedon; mas nem queriam
Do amplo Helesponto reverter às praias,
Nem ao combate; quedos, como o cipo
De varão no sepulcro ou de matrona,
Ante o nítido carro, de olhos baixos,
Do seu guia saudosos, quentes gotas
Vertiam sobre a areia; em cerco ao jugo
Manchada lhes flutua a espessa crina.
O Satúrnio, do choro condoído,
A cabeleira abana e entre si fala:
“Qual! Não sujeitos à velhice e à morte,
Ao rei mortal Peleu doados fostes,
Para entre humanos padeceres mágoas?
As criaturas são mais infelizes
Das que na terra movem-se e respiram!
Em coche que tireis nunca o Priâmeo
Se assentará, que o vedo: não lhe basta
Ufanar-se das armas temerário?
Ânimo hei-de infundir-vos, por que a salvo
Automedon vos reja. À instruta frota
Levar inda a matança aos Troas caiba,
Té que o Sol caia e assome a sacra noite.”
Logo inspira aos corcéis força incansável:
Ei-los, o pó da juba sacudindo,
O coche entre uns e outros arrebatam.
Em cima Automedon, que a dor comprime,
Rui qual de chofre abutre sobre gansos;
Ora foge ao tumulto, ora se envia
Ao mais basto; repele-os sem matá-los,
Que, só no divo assento, era impossível
Suster as bridas e jogar da lança.
Do Emônio Laerceu o avista o filho
Alcimedon, que pára: “Um deus te cega!
Só, na vanguarda combater intentas?
O sócio egrégio, Automedon, foi morto,
E exulta e ombreia Heitor o arnês de Aquiles!”
Respondeu-lhe o Diório: “A que outro Grego,
Depois do auriga divinal Patroclo,
Posso entregar, Alcimedon, a biga?
Pois que ele preia foi da Parca horrível,
Toma o chicote e as artefatas rédeas;
Que a pé vou pelejar.” – o Laerceides
Pula ao carro, o chicote e as rédeas pega;
Automedon se apeia. Heitor adverte-o,
Volta-se a Eneias: “Príncipe, os cavalos
Do Eácida veloz, observo, trotam
Com inábeis cocheiros: se me ajudas,
Empolgados serão; pois de arrostar-nos
Aos dois guerreiros faltará coragem.”
Aplaude o Anquíseo. Vão direitos ambos,
Com sólidos broquéis de couro táureo,
De multíplices lâminas forrados.
Crômio e o deiforme Areto os acompanham,
Crendo imolar os dois e haver a biga
De árdua cerviz: dementes! Não sem sangue
Automedon consentirá que voltem.
Este ora a Jove, o peito hirsuto mune
De fortaleza, e ao fido sócio fala:
“Perto os corcéis, Alcimedon, me tenhas,
E às costas me respirem: não presumo
Que Heitor amaine a fúria, antes que monte
Os comados frisões, nos mate, em fuga
Ponha os Aquivos, ou na empresa acabe.”
Então chama os Ajax e o louro Atrida,
Por socorro a bradar: “Curem do morto
E preservem-no fortes que o circundam;
O escuro dia repeli de vivos:
Os Teucros de mor brio a nós remetem,
Entre o choroso prélio, Heitor e Eneias.
Pousa o evento aos joelhos dos supremos:
Daqui dardejo, e deixo tudo a Jove.”
Disse, e de Areto na rodela o pique
Penetrando sem custo, lha atravessa,
Pelo bálteo lhe fura o baixo ventre:
Qual, se afiada secure de um mancebo
De boi silvestre sobre os cornos talha
O nervo todo, pula e cai a rês;
Tal pula e cai Areto, e nas entranhas
Hasta fremente as forças lhe descose.
Despede Heitor a Automedon a sua:
Este previsto se proclina e livra:
Atrás se enterra a choupa e o conto abana,
Até que Marte o ímpeto lhe quebra.
De espada iam bater-se, a não romperem
Os dois Ajax ardentes pela turba,
Acudindo ao chamado; receosos
Vão-se Eneias e Heitor e o divo Crômio,
E Areto fica de rasgado seio:
O márcio Automedon lhe tira as armas
A jactar-se: “A Patroclo este é somenos,
Mas algum tanto o nojo me alivia.”
Logo o espólio cruento ao carro sobe,
Tendo punhos e pés ensangüentados,
Como um leão que fez de um touro pasto.
Sobre o corpo recresce a lagrimosa
Contenda, exacerbada por Minerva,
A quem, já de outro acordo, o pai supremo
Do céu mandara acorçoar os Gregos:
Bem como quando Jove aos homens tende
O áreo purpúreo, indício de batalhas,
Ou de fria procela, que suspende
Rurais trabalhos e entristece o gado;
Ela coberta assim de roxa nuvem,
Do campo a dentro, a cada qual suscita.
Primeiro a Menelau, que estava perto,
A forma e a voz de Fênix indefessa
Assumindo, clamou: “Que opróbrio, Atrida,
Se os cães de Ílio consentes lacerarem
O consócio fiel do exímio Aquiles!
Eia, o exército anima, e sê brioso.”
E o pugnaz Menelau: “Se, ó padre Fênix,
Augusto velho, me assistisse Palas,
E da chuva de setas me abrigasse
Eu por certo a Patroclo socorrera,
Cuja morte me pesa e me angustia;
Mas o fogo de Heitor e o voraz bronze
Consumem tudo, e Jove o glorifica.”
Alegre de invocada ser primeira,
Joelhos e ombros lhe vigora a deusa;
Põe-lhe no peito negro a teima e audácia
Com que a mosca, enxotada, insiste e morde,
Pois é de sangue humano apetitosa.
Próximo de Patroclo, a lança brande:
Pelo talim perfura o Teucro Podes,
Rico e forte plebeu, de Eetion nado,
De Heitor estimadíssimo conviva;
Que, ágil a se escapar, de roldão tomba.
Para os Aquivos ao regalo Atrida,
A Heitor exorta Apolo arcipotente,
Em Fenope de Abido, filho de Ásio,
O hóspede seu mais caro, disfarçado:
“A que outro Grego, Heitor, serás tremendo,
Se a Menelau, guerreiro pouco ilustre,
Tens hoje medo? Ousa ele só de rastos
Levar teu fido sócio, o estrênuo Podes,
Entre os primipilares abatido.”
O herói, de alma toldada e erifulgente,
Sai da linha. A de fímbrias Jove apunha
Égide jaspeada, o Ida enubla;
O escudo a sacudir, corisca e toa,
Em sinal da vitória dos Troianos.
Primeiro foge Peneleu Beócio;
Que de hasta, fronte a fronte, Polidamas
O ombro lhe esflora e o osso lhe descarna.
Heitor vulnera o corpo a Leuto, filho
Digno de Alectrion; que, da ação fora,
Trépido em roda olhando, se retira,
Porque na mão suster não pode a lança.
Idomeneu de Leuto o vê no encalço,
À mama atira, o pique na couraça
Pelo encaixe estralou, com Tróico aplauso.
Heitor joga ao Deucálide, que ereto
No coche estava; o bote errado apanha
A Cerano, que lá da altiva Lictos
Como escudeiro a Merion seguira.
Pedestre Idomeneu, da armada vindo,
Dera alta glória aos Teucros, se os cavalos
Não traz Cerano, que de Heitor ferino
Salva o Cretense rei, mas perde a vida:
A ponta o fere sob a orelha e o queixo,
Os dentes lhe espedaça e tronca a língua;
Ele do coche rola e solta as rédeas.
Curvo as colhe Merion, dizendo: “O açoute
Maneja, Idomeneu, sus, corre à frota:
Para os Dânaos, bem vês, não há vitória.”
Já, temeroso, o crinipulcro tiro
Toca o rei para bordo. Ajax percebe
Com Menelau que a sorte é pelos Teucros,
E o celso Telamônio assim discorre:
“Ah! sente o mais estulto que o Satúrnio
É contra nós: os inimigos dardos,
Ou do imbele ou do bravo, ele os dirige;
Os nossos pelo chão frustrâneos morrem.
Eia, a melhor maneira excogitemos
De ir com Patroclo e encher de gosto os sócios
Que tristes nos aguardam; nem já contam
Suster as cruas mãos de Heitor invicto,
Sim ante as naus cair. Oh! Para Aquiles,
Que do amigo suponho ignora o fado,
Houvesse um núncio! Mas ninguém descubro,
Que homens e carros basta névoa esconde.
Jove aos Dânaos dissipa tal negrume,
Serena o tempo, dá-lhes vista aos olhos;
Pereçam, pois te apraz, à claridade.”
Do pranto seu comiserou-se o Padre;
A caligem desfez. Refulge o campo
À luz do sol, e o Telamônio instando:
“Olha e vê, Menelau, se está com vida
O magnânimo Antíloco Nestório:
Corra, ao belaz Eácida anuncie
Do predileto amigo a desventura.”
Põe-se a caminho logo o bravo Atrida.
Como leão, depois de haver de noite
Cães provocado e vigilantes guardas,
Que cevar-se nos bois lhe não consentem,
Lasso de vãos assaltos, esfaimado,
O curral deixa e de manhã se aparta,
Mesto e raivoso, expulso por audazes,
Contínuos dardos e tições voantes;
Assim, forçado, o valoroso Atrida
Saiu, temendo que por medo os Gregos
Entregassem Patroclo, e disse: “Ó nobres
Chefes Ajax, tu Merion, não vades
Esquecer-vos do mísero Menécio;
A quem urge ora a Parca, e em vida todos
Sabem como era generoso e brando.”
Mal acaba, se foi. Como águia, dizem
De agudíssimos olhos entre as aves,
Das nuvens lobrigando em verde moita
Lebre ligeira, de repente a empolga,
Lacera e mata; assim, de Jove aluno,
Com vista perspicaz em torno, indaga
Pelas falanges todas se inda vive
Antíloco Nestório. Estava à esquerda
Concitando o combate, e já de perto
Lhe fala o Atrida: “Aqui me escuta, amigo,
Um triste anúncio, que oxalá não fora.
Por ti conheces que o triunfo Jove
Reserva aos Teucros e a ruína aos Gregos:
Jaz Patroclo fortíssimo, dos nossos
Com mágoa imensa! Voa às naus de Aquiles:
Venha salvar sequer o nu cadáver,
Que de Heitor galeato o arnês é presa.”
Antíloco, de ouvi-lo triste e mudo,
Pegada a voz, em lágrimas rebenta;
Mas obedece, confiando as armas
A Laodoco esforçado, que os ginetes
Lhe moderava, e aceleradamente
Choroso os pés o levam para Aquiles,
A anunciar-lhe o caso miserando.
Nem tu, bizarro Menelau, quiseste
Suprir de Antíloco a sentida falta:
Seus Pílios ao divino Trasimedes
Encomendas, e volves a Patroclo,
Junto aos Ajax parando: “O expresso voa;
Mas, contra o nobre Heitor em que urre Aquiles,
Não pode agora vir, que está sem armas.
Deliberemos nós como remirmos
Da baralha este corpo e a nossa vida.”
E o Telamônio: “Amigo, bem discorres.
Já, tu com Merion carrega o morto:
Atrás nós cá, do mesmo nome e audácia,
Que unidos sustentado o marte havemos,
Da chusma e do acre Heitor vos resguardamos.”
Os dois erguem nos braços o cadáver;
Bramindo, ao vê-lo, os Teucros se arremessam.
Quando cães, precedendo aos caçadores,
Cerdo acossam ferido, impacientes
De espedaçá-lo, a fera a poucos passos
Vira sanhuda e a caniçalha foge:
Em barda assim, de bipontudas lanças
E de espadas os Teucros acometem;
Mas, tanto que os Ajax torvo os encaram,
Em tropel de cor mudam, nem se atrevem
Sair da fila e disputar Patroclo.
Após os dois que os levam pressurosos
Move-se atroz peleja, e de guerreiros
E de corcéis horríssono tumulto;
Qual, de estridentes sopros ao mugido
Salta em cidade repentino incêndio,
Que em vasta chama desmorona os tetos.
Como rígidos mus, que da montanha,
Labutando e em suor, ou trave ou mastro
Naval trazem por áspera azinhaga;
Vão ambos o cadáver transportando.
E os Ajax o inimigo lhes arredam,
Ao teor do mamilo nemoroso
Que, na campina opondo-se à torrente,
Afasta o rio e lhe desvia o curso.
Em mó porém os Teucros os perseguem,
Mormente o nobre Heitor e o divo Eneias;
E por estes repulsos, à maneira
De uma nuvem de gralhos e estorninhos,
Que ao ver o gavião, terror das pombas,
Guinchando foge, em alarida os Gregos
Se esquecem do combate e retrocedem.
Muito arnês cai no fosso à retirada;
Não cessa todavia o morticínio.

Uma resposta to “XVII”

  1. lidiane Says:

    q legal esse texto


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