XI

Surgindo a Aurora do Titônio leito,
O globo e os céus alumiava, quando
Jove a nera Discórdia às naus despede;
A qual da guerra sacudindo o facho,
Parou no centro, na de Ulisses, donde
Em tendas e baixéis ouvida fosse
De Aquiles e de Ajax, que aos dois extremos,
No seu valor seguros, alojavam.
Brame horrentíssimo, e retine o grito
Ao coração dos Dânaos, que incessantes
Anseiam batalhar, e então mais doce
Lhes era a pugna que a tornada à pátria.
Clama e intima Agamêmnon que se aprestem,
E aêneo luz. Com prata finas grevas
Primeiro às pernas afivela; aos peitos
Loriga veste, que hóspede Ciniras
Mandou-lhe em dádiva, ao troar em Chipre
A nova de ir a Tróia a Grega armada:
Compunha esmalte escuro dez estrias,
Doze ouro, estanho vinte; azuis ao colo
Três serpes iriando lhe trepavam,
Como o curvo sinal que o Padre em nuvens
Aos falantes gravou. De áurea tauxia
E de áureo boldrié, fulgura a espada
Em argêntea bainha. Adarga-o todo
Estupendo pavês, maneiro e ingente,
Com dez êneos debruns, com vinte umbigos
Branquíssimos de estanho, e de aço bruno
Disparava o do meio ameaçadora
A feia Górgona e o Terror e a Fuga;
De argêntea faixa ao longo se torcia
Vivo dragão cerúleo, que recurvas
Tinha cabeças três num só pescoço.
Do elmo de quatro cones tachonado
Crista lhe nuta horrenda e eqüina coma.
Válidas eriagudas lanças duas
Toma, cujo fulgor fere as estrelas.
Palas de cima e Juno, em honra toam
Do opulento senhor da grã Micenas.
Prescrito a cada auriga ter em ordem
Junto ao fosso os corcéis, ruidoso e imenso
Antes d’alva o alarido, a pé remete
Armados campeões, e atrás em fila
Vêm vindo os carros. Do éter o Satúrnio
Rumoreja, e de sangue orvalho chove,
Presságio de que ao Orco iam ser muitas
Almas de altos varões precipitadas.
Além, num teso, o reto Polidamas
Alinha os seus, e Eneias nume ao povo,
Mais os três Antenóridas, Polibo,
Nobre Agenor, inda solteiro Acamas
A imortais parecido; à frente a enorme
Rodela vibra Heitor: qual dentre as nuvens
Sem véu nenhum reluz funesto Sírio,
E alguma vez se ofusca; assim na prima
Ala aparece o herói, percorre a extrema,
Prevê, dispõe, comanda, em bronze esplende,
Como o tonante Egíoco lampeja.
Quando centeio ou trigo os segadores
Em farta messe opostos vão ceifando,
O agro juncam de espigas: tais se prostram,
Com mútua horrenda clade, Argeus e Teucros;
A desastrada fuga a nenhum lembra;
Barba a barba, acometem como lobos.
Lutuosa a Discórdia olhando exulta,
Único deus que assiste: os mais, por cumes
Do Olimpo, quedos em mansões formosas,
O Anuviador acusam, que aos Troianos
Destinava o triunfo; mas o Padre,
Sem lhe importar, a parte e ledo mira
Naus e cidade, os fulgurantes bronzes,
O ferir e o morrer dos combatentes.
Enquanto ia crescendo a manhã sacra,
A turba tiros cai; mas, quando em vales
De árvores decotar a mão sacia
Lânguido o lenhador, e ávido anela
Almo sustento e seu jantar prepara,
Uns então pelos outros animados,
Rompem com brio os Dânaos as falanges.
Agamêmnon precede, e abate o régio
Maioral Bianor e Oileu cocheiro.
Oileu se apeia e investe; mas na fronte,
Sem que êneo casco o embargue, entrada lança
Pelo osso, dentro o cérebro deturpa:
Doma-lhe a audácia o rei. Nus amo e pajem
Da túnica e loriga, os abandona.
Foi-se a Ísios e Antifo Priameios,
Legítimo e bastardo, ambos num coche:
Era o bastardo auriga, Antifo ilustre
Pelejador, os quais, pascendo ovelhas
Em fraga Idea, atara em fléxeis vimes
E o seu resgate recebera Aquiles:
De hasta a Ísios o Atrida a mama fere,
A Antifo de um fendente ao pé da orelha
Derriba; eis despede-os das brilhantes armas,
Reconhecendo-os, pois a bordo os vira,
De quando o velocípede os prendera.
Leão, que em toca assalta a corçozinhos,
Fácil com dente rábido os lacera
E as tenras almas tira; a mãe coitada,
Perto embora, não cuida em protegê-los,
Trêmula em denso carvalhal se acouta,
Suando evade-se à cruenta fera:
Assim, nenhum Troiano ousa acudir-lhes,
Do Ímpeto Graio trépidos fugiam.
O argólico leão corre a Pisandro
E ao firme estrênuo Hipóloco, dois ramos
De Antímaco valente, o qual, peitado
Pelo esplêndido Páris, mais se opunha
A ser entregue Helena ao flavo esposo;
Toma-os num ponto e seus corcéis retidos,
Pois largaram de susto insignes rédeas,
No carro de joelhos implorando:
“Vivos nos leva, Atrida, e aceita o preço
Da remissão; que Antímaco, pai nosso,
Cobre e ouro encerra e trabalhado ferro,
E te há de encher de dádivas infindas,
Se presos nos souber na Argiva armada.”
Falam chorando ao rei com meigas vozes,
E ele não meigas volve: “Que! sois filhos
De Antímaco belaz, que em Tróica junta
Votou morte a Grajúgenas legados,
A Ulisses divinal e a Menelau?
Ora pagai-nos a paterna injúria.”
Disse, e um bote a Pisandro, pelos peitos,
Lança do coche, ressupino o estira;
Salta Hipóloco em terra, e a gládio o Aquivo
Os braços e o pescoço lhe decepa,
E como um tronco arbóreo à chusma o atira.
Dali desfaz, com outros bem grevados,
Hostes inteiras: a pedestre imola
Pedestre, cavaleiro a cavaleiro;
Pulvéreas nuvens ergue ericalçado
O ruidoso tropel quadrupedante.
O rei vai na carnagem prosseguindo
E acorçoando os seus: como edaz fogo
Em virgem mata, ao vário Eólio sopro,
Árvores turbinoso extirpa e fende;
Ele assim talha e estronca os fugitivos,
E a nitrir, entre as filas derrotadas,
Rojam árduos corcéis vazios carros,
Tristes por seus cocheiros, que ali jazem
Mais gratos aos abutres que às esposas.
A Heitor fora do pó, dos tiros fora,
Da carnívora ação, da gritaria,
Jove entanto conduz: na ânsia de abrigo,
Já de Ilo o prisco túmulo trasposto,
À baforeira os Teucros se aproximam;
Rugindo os segue o Atrida, e vai manchando
Em cruor polvorento as mãos invictas;
Retêm-se eles às portas junto à faia,
Uns a espera dos outros. Qual em noite
Borrascosa o leão pela campina
Pávidos bois acossa, e ao mais tardonho
Rasga a cerviz com navalhadas presas,
Sangue lhe chupa e entranhas; Agamêmnon
Tal os encalça e o derradeiro prostra:
Quem de costas caía, quem de bruços,
Da régia lança aos furibundos golpes.
O herói tocava os muros; e eis baixando,
Na destra o raio, o pai de homens e numes
No pino do Ida em fontes abundante
Senta-se, a núncia ali-dourada chama:
“Rápido, Iris: Heitor que o pé reprima,
Enquanto à frente o maioral dos Gregos
Cortar nos batalhões, mas sempre alente
Os seus a resistir o embate horrível.
Assim que o vulnerar ou dardo ou seta,
Ao carro monte; eu lhe darei vitória:
Há-de às instrutas naus levar o estrago,
Té que o sol tombe e venha a sacra noite.”
Aerípede a núncia do Ideu cume
À santa Ílio descendo, o Priamides
Encontra em pé no aparelhado coche:
“Guerreiro na prudência igual a Jove,
Isto ele aqui te ordena: o pé reprimas,
Enquanto à frente o maioral dos Gregos
Cortar nos batalhões, mas sempre alentes
Os teus a resistir o embate horrível.
Assim que o vulnerar ou dardo ou seta,
Montes ao carro, e te dará vitória:
Hás-de às instrutas naus levar o estrago,
Té que o sol tombe e venha a sacra noite.”
Some-se Íris. Heitor pula do coche,
Dardos brande erifúlgidos, alas corre,
Provocando a conflito: voltam face
Os Teucros logo; intrépidos os Dânaos
Cerram-se firmes, a peleja instauram;
De encetá-la ansioso, rui o Atrida.
Celestes musas, declarai-me agora,
Que ilustre auxiliar ou que Troiano
Com Agamêmnon se arrostou primeiro?
Alto e audaz o Antenórida Ifidamas,
Na altriz criado pecorosa Trácia.
De pequeno o educara o avô materno
Cisseu, pai da pulquérrima Teano;
O qual vendo-o na ovante puberdade,
Para tê-lo consigo, deu-lhe a filha.
Noivo, ao soar a empresa, vasos doze
Tripulando, ancorou-os em Percope,
Veio por terra socorrer a Tróia.
De perto, fronte a fronte, já se investem:
Agamêmnon desfecha, e o dardo aberra;
Ele por sob a coira à cinta o apanha,
Com rijo pulso e esforço enterra a ponta,
Que o bom talim não fura, mas qual chumbo
Topando amolga em lâmina de prata.
Com garras de leão, furioso o Atrida
A haste a si puxa, arranca-lha, de um talho
Cerceia-lhe o pescoço e os membros solve.
Por seus concidadãos sono éreo dorme,
Ah! longe da mulher que em flor obteve,
Da qual nem se logrou nem prole havia,
À qual cem bois doara e prometera
Cabras e ovelhas mil dos seus pastios.
Despiu-lhe as pulcras armas Agamêmnon,
Entrou com elas pela Argiva turba.
Coon, claro Antenórida e o mais velho,
Defunto o irmão, toldados sente os lumes;
De esguelha sorrateiro escorregando,
Além do cotovelo, no antebraço
De Agamêmnon a choupa enfia aênea:
Ao golpe freme o rei, mas não desiste;
Hasta em punho dos ventos roborada,
Acomete a Coon, que de Ifidamas,
Do mesmo pai gerado, ia o cadáver
Arrastando e a gritar que o socorressem:
Nisto, abaixo do escudo um bote acerta,
Sob o fraterno corpo é degolado.
Cheio o destino, ao Orco assim o Atrida
Estes dois Antenóridas remete.
Enquanto o sangue da ferida mana,
A gládio alas descose, a dardo, a pedras;
Assim que estanca e esfria, eis lancetadas
Lhe vêm, não menos cruas que as da frecha
Que despedem no parto as Ilitias,
Filhas de Juno e mães de cruas dores.
Monta, e magoado a seu cocheiro ordena
Que aos baixéis o transporte, e vocifera
Com voz tonante: “Príncipes e amigos,
Toca-vos repelir das naus o assalto;
Veda o padre bater-me o dia inteiro.”
O auriga para a frota os crinipulcros
Frisões verbera, que espontâneos voam;
Sob os pés a poeira, a escuma aos peitos,
O atribulado rei do prélio afastam.
Ausente o Aquivo chefe, trovejando
Heitor instiga os seus: “Troianos, Lícios,
De perto exímios Dardanos, sede homens,
A vossa intrepidez vos lembre, amigos:
Foi-se o herói, e o Satúrnio dá-me a glória;
Maior a alcançareis, aos feros Dânaos
Remessai-me os solípedes ginetes.”
Com isto inflama e os corações esforça.
Como açula o monteiro a cães de fila
Contra leão ou javali sanhudo,
O atroz Marte Priâmeo contra os Graios
Os Magnânimos Teucros açulava:
Ao conflito se arroja impetuoso,
Qual sibilante furacão das nuvens
Salta e encapela o ferrugíneo pego.
Que heróis de Heitor a cólera provaram,
Ao cingi-lo o Supremo da vitória?
Osseu logo, Agelau, Autono, Opites,
Com Dolope de Clício, Oféltio, Esimno,
Oros, e enfim o acérrimo Hiponoo:
Passa ao depois às turmas. Quando em luta
Zéfiro exasperado açouta as nuvens,
Que vivo Noto imbrífero ajuntara,
Ao multívago sopro incha a mareta,
Remoinha e salpica a espuma os ares:
Tantas vidas à plebe Heitor segava.
Fora total o exício e irreparável,
A fugida mortífera, a Tidides
Se não clamasse Ulisses: “Que! Diomedes,
Nosso brio esquecemos? oh! que opróbrio,
Se o belígero Heitor nos toma a frota!
Põe-te ao meu lado, amigo.” – “Sim, responde,
Eu te sustentarei; mas pouco importa,
Que Jove aos Teucros o triunfo apresta.”
Disse, e a lançada à sestra mama expele
Do assento ao rei Timbreu; no entanto Ulisses
Lhe mata o pajem Molion deiforme.
Da batalha estes fora à chusma investem,
Como a lebréus dois javalis bravosos:
O ímpeto e assalto novo a desbarata,
E os de Heitor perseguidos já respiram.
Num coche os nados brilham do adivinho
Meropo de Percote; irmãos que o padre
Vedou que entrassem na homicida guerra,
E a quem surdos as Parcas atraíram:
Priva-os Diomedes ínclito lanceiro
Do alento e belo arnês, enquanto Ulisses
Mata Hipódomo e Hipíroco e os despoja.
Do Ida olhando o Satúrnio, iguala a pugna,
E as mortes fervem. Lanceou Diomedes
Na coxa o herói Agástrofo Peônio:
Doeu-lhe dos corcéis faltar-lhe o efúgio;
Que o pajem longe os tinha, e ele pedestre
Acre avançava, até que a vida perde.
Heitor o adverte, e às hostes brame e acorre;
Diomedes mesmo enfia: “Ulisses, olha,
Um turbilhão nos volve Heitor furente;
Constância, amigo, o embate rechacemos.”
Nisto, o pique despede, e não baldio,
Bate-lhe na cabeça; mas do bronze
Repulso o bronze, a cútis nem lhe esflora;
Tríplice o tolhe o elmo, dom de Febo.
Desaparece Heitor, e a poucos passos
Cai ajoelhado, à forte mão sustido;
Um tenebroso véu lhe enfusca os olhos:
Pela Teucra vanguarda ia Diomedes
Seu pique recobrar no chão pregado,
Quando em si torna Heitor e ao carro pula,
No tropel se confunde e o transe evita.
E o Grego, em reste a lança: “Inda escapaste,
Cão, do corte letal salvou-te Apolo,
Que entre o fragor das armas sempre invocas.
Hás-de, ajude-me um deus, comigo haver-te;
Outros por ti mo pagarão agora.”
Ao Peônio deitava-se, eis que o tiro
Arma o taful da emadeixada Helena,
Atrás do cipo tumular do antigo
Ilo, Dardânio padre: o herói despia
Do hasteiro extinto Agástrofo a couraça
Vária e o broquel e o grave capacete;
O arco dispara, a vira não desmente,
Que ao pé destro as falanges atravessa
E enterra-se no chão. Rindo ufanoso
Páris sai da emboscada: “Estás ferido,
Nem me falhou a seta: oh! se te houvera
Profundado as entranhas! De ti, monstro,
Respiravam Troianos, que te hão medo,
Assim como a leão berrantes cabras.”
E Diomedes impávido: “Insolente,
Só bom no corno e rufião de moças,
Vem cara a cara, e o arco e pleno coldre
Verás se te aproveitam: vanglorias
De arranhares-me um pé? não me inquieta,
Foi de fêmea ou criança espinho leve;
Mossa não faz o golpe de um cobarde.
Meu dardo, sim, é ruína do em que toca,
É pranto e mágoa da carpida esposa,
De filhos desamparo; em sangue a terra
Avermelha e apodrece; em torno ao morto
Mais que a mulheres os abutres chama.”
Põe-se Ulisses diante; ele se encosta
No amigo e extrai a farpa: em todo o corpo
Sofre agras dores; monta, e angustiado
Manda ao cocheiro que o transporte a bordo.
Dos seus abandonado Ulisses resta;
Suspira e fala com sua alma grande:
“Ai! que farei? Se à multidão por medo
Me esquivo, é mau; pior, se aqui me apanham,
Pois Jove há dispersado os outros Graios.
Mas que indago, minha alma? Eu sei que é torpe
O combate largar; deve um guerreiro
Com firmeza ou ferir ou ser ferido.”
Enquanto em si discursa, as Tróicas turmas
Sobrevêm adargadas e o torneiam,
Dentro a peste acolhendo. Se em balbúrdia
Flóreos moços e cães javali caçam,
Da mata surde a fera, os alvos dentes
Nas recurvas queixadas amolando;
Apesar do rangido e aspecto horrendo,
Férvida a chusma o ataca: assim, de Ulisses
Divino em cerco, os Troas o acometem.
Ei-lo de hasta, ao famoso Deiopite
O ombro fisga, a Toon e Enono estende,
E a Cersidamas, ao pular da sela,
Por debaixo do escudo o umbigo ofende;
No pó tomba o infeliz, de palma em terra.
Deixa-os, e agride o Hipásida Caropo,
De Soco generoso irmão germano;
Soco deiforme a socorrê-lo avança,
Perto brama: “Doloso e infatigável,
Filhos ambos de Hipaso, ou tens a glória
De mortos hoje nos despir as armas,
Ou desta minha ao bote a vida exalas.”
Esgrime, e a choupa a lúcida rodela
Fura e a mesma couraça artificiosa,
Rasga-lhe as carnes das costelas: Palas
As vísceras preserva. O golpe Ulisses
Mortal não o sentiu; recua um pouco:
“Ah! fraco, diz, soou-te a hora extrema:
De progredir no prélio me tolheste;
Mas desta lança o gume, hoje to afirmo,
Dar-te-á morte escura e a mim triunfo,
Tua alma ao rei da lúgubre quadriga.”
Soco retrocedia, quando a ponta
Finca-se atrás na espádua e sai aos peitos;
Rui com fracasso; o vencedor o insulta:
“Soco Hipasíada egrégio cavaleiro,
Do fim letal, ah! vil, não te evadiste;
Pai nem piedosa mãe te cerra os olhos;
De asas batendo-te, aves de rapina
Te-hão de cruas tragar: morto eu, de Aquivos
Respeitosos terei funéreas honras.”
Aqui, da pele e do copado escudo
O dardo extrai que lhe vibrara Soco:
Dor curte acerba e lhe borbota o sangue;
Ao vê-lo, os Teucros a exortar-se acodem;
Retrograda e alça a voz; o grito ouviu-lhe
O belicoso Menelau três vezes,
E volto a Ajax: “Ó Telamônio excelso,
Do Laércio me soa o aflito brado,
Como de quem labora em grande afronta:
Rompamos pela turba a defendê-lo.
Temo que só, por tantos apertado,
Pereça o herói, com mágoa dos Aquivos.”
Marcha, e após ele o divinal guerreiro;
Acham de Jove o aluno entre os contrários.
Já frechado, fugaz galhudo cervo
Ao caçador se esquiva, enquanto o sangue
Tépido escorre e movem-se-lhe as pernas,
Té que o doma a ferida, e em monte umbroso
Crus ávidos chacais vão lacerá-lo;
Nisto, um leão rebenta formidável,
Que derrama os chacais e a presa toma:
Assim bravo tropel cercava o astuto
Herói, que de hasta em punho o amargo dia
Repulsa audaz; mas rui o Telamônio
De pavês torreante, e foge a turba.
A Ulisses Menelau sustém nos braços,
E o coche entanto o pajem lhe aproxima.
Remete Ajax ao Priameio espúrio
Dóriclo e o mata; a Pândaco vulnera,
Mais a Lisandro e Píraso e Pilarte.
Quando o imbrífero nume das montanhas
Torrentes rola, a cheia o campo inunda,
Secos leva lariços e carvalhos,
E o lodo arroja ao mar: Ajax destarte
Vai cavalos talhando e cavaleiros.
Isto ignorava Heitor, à esquerda e às ribas
Do Escamandro a pugnar, onde as cabeças
Bastas caindo, há grita imensa em torno
Do grande Pílio e Idomeneu mavórcio.
Lá, de hasta e carro, Heitor passeia ardido,
E hostes brilhantes façanhoso arrasa;
Mas brecha entre esses bravos não se abrira,
Se o raptor da pulcrícoma não fere
Com trifarpada seta no ombro destro
Ao belaz Macaon pastor de povos.
Desanimam-se os Dânaos, receando,
Inclinado o conflito, ali perdê-lo;
E à pressa Idomeneu: “Monta, Nelides,
Honra da Grécia; a Macaon recolhe,
Para a frota os ungüíssonos dirige:
Por muitos vale um médico; ele os dardos
Extrai, unge a ferida e acalma as dores.”
Sem demora Nestor sobe a seu carro,
E do exímio Esculápio o digno filho;
Toca os ginetes, que de grado arrancam,
De voltar para as naus contentes voam.
Do coche Hectóreo, Cebrion dispersos
Avista os seus e clama: “Aqui num cabo
De horríssona batalha combatemos,
E os mais Teucros, Heitor, baralha e espanca-os
O Telamônio Ajax, que reconheço
Pelo imenso pavês. Lá galopemos
Onde o estrondo é maior, onde a carnagem
De équites e peões é mais ferina.”
Ei-lo estala o chicote, e os crinipulcros,
Sentindo o açoute, a Gregos e a Troianos
Corpos e escudos rápido calcavam:
Eixo e caixa de sangue afeiam gotas
Que das patas e rodas se espargiam.
Heitor como arde por cortar na turba!
Derrota, esgrime, nem descansa o braço,
A gládio e lança e pedra assola e estraga;
Porém do Telamônio o encontro evita.
A Ajax do Olimpo Jove incutiu medo:
De setêmplice tarja às costas fica;
Atento à chusma, atônito se aparta,
Feroz volta-se, e lento o passo alterna.
Cães e campinos, em noturna vela,
Famélico leão do cerco expedem,
Vedando-lhe o cevar-se em pingues reses;
Em vão remete, que, de audazes pulsos
Dardos voando e fachos, ruge iroso
Recua, e n’alva se retira mesto:
Assim, tristonho e invito, Ajax temendo
Pelas Aquivas naus, deixava os Teucros.
Apesar dos meninos que o fustigam,
Dentro a seara tosa asno tardio;
Sem que fracas pauladas o inquietem,
Só deixa o pasto quando a fome extingue:
Tal, dos golpes zombava o Telamônio
Dos valorosos Teucros e aliados;
Lembra-lhe o brio próprio, encara ou foge
Contendo as hostes de assaltarem juntas
A Grega frota. Em meio ele só brame
Dos exércitos ambos; chovem tiros,
Fincam-se no pavês, muitos na areia,
De embeber-se nas carnes desejosos.
Eurípilo Evemônio, ao vê-lo opresso,
Corre com brava ardente lança ao cabo
Apisaon Fausiade, por baixo
Do diafragma o fígado lhe vara
E afrouxa-lhe os joelhos. A apear-se
Vai por despi-lo, e o arco atesa Páris;
Na destra coxa, a Eurípilo vibrada,
Quebra-se a frecha e cruas dores causa.
Ele aos seus revertendo ilude os fados,
E forte vocifera: “Aqueus e amigos,
Alto! afastai de Ajax o escuro dia;
Duvido escape da tormenta horríssona,
Mas socorrei de Telamon o filho.”
De escudo aos ombros e hasta em reste, os sócios
Junto ao ferido apinham-se; a encontrá-los
De fronte Ajax reverte; em mó carregam,
Pelo tropel qual fogo iam lavrando.
Suadas ao levar Neleias éguas
A Macaon e o dono, o Velocípede
Reconhece-os da popa, donde a lide
E a fuga lagrimosa contemplava;
Grita ao Menécio, que parelho a Marte,
Princípio do seu mal, da tenda assoma:
“Que me queres, Aquiles, que me ordenas?”
O amigo então: “Patroclo da minh’alma,
Intolerável peso oprime os Dânaos,
E ante mim os figuro suplicantes.
Presto, a Nestor pergunta, ó caro a Jove,
Qual dos chefes transporta golpeado;
Pelo talhe o Asclepíade parece;
Rápida biga seu semblante encobre.”
Dócil o bom Menécio ao companheiro,
Entre o campo corria e as naus Aquivas.
Nestor e Macaon já n’alma terra
Apeiam-se, e desjunge antigo pajem
Eurímedon o carro; as vestes ambos
Na praia do suor ao vento enxugam:
Vão-se à tenda, em camilhas se recostam.
Bebida apresta a nítida Hecamede,
Filha do grande Arsímoe, que o Gerênio
Por exceder a todos nos conselhos,
Houve em Tênedos, presa do Pelides.
Põe de azulados pés à lisa mesa
Flor de sacra farinha em disco aêneo,
Recente mel e um pico de cebola;
Põe copa linda, que trouxera o velho,
De cravos de ouro, e de ouro um par de pombos
Em torno a cada uma de asas quatro,
Com dois no fundo, ali se apascentavam:
Movê-la outrem sem custo não pudera,
E cheia o velho facilmente a erguia.
A divinal donzela Prânio vinho
Dentro mescla, e raspado em êneo ralo
Queijo caprino e uns pós de branco trigo;
E os conforta com isto e os dessedenta.
Já se recreiam conversando, e à porta
A um nume igual apareceu Patroclo:
Em pé Nestor, condu-lo pela destra
Ao resplêndido escano; mas o núncio
Renui dizendo: “Ancião de Jove aluno,
Não me assento; é terrível quem me envia
Para saber qual fosse o vulnerado;
Vejo que é Macaon, a Aquiles torno.
Tão colérico humor tu bem conheces:
Em seus furores o inocente culpa.”
“Ah! clama o velho, sente Aquiles hoje
Dos vulnerados pena? O luto ignora
Do campo inteiro? A bordo os mais estrênuos
À mão tente ou de longe estão feridos:
A pique o Atrida e Ulisses, mas frechados
Na coxa Eurípilo e no pé Tidides;
Arco a farpa enviou contra este amigo.
Forte em vão, sem piedade espera Aquiles
Que hostil fogo, apesar do esforço nosso,
Consuma as naus, e pereçamos todos?
“Oh! pubente fosse eu robusto e ágil,
Qual dos Epeus e Pílios na discórdia
Pelo armento roubado em represália,
Quando o Hipiróquio Itimoneu, que em Élis
Habitava, abati! sob o meu dardo,
Ao defender seus bois, caiu na frente;
Bravia a tropa, derrotada, aos nossos
Tudo largou: de ovelhas greis cinqüenta,
Iguais vacuns manadas, e não menos
Varas de porcos e de cabras fatos;
De éguas baias o triplo e seus mamotes.
Folgou Neleu de noite à nossa entrada,
Porque estreei novel com tais proezas.
Pregões chamaram n’alva a quem devia
Elide gado, e os príncipes a presa
Pelos muitos queixosos dividiram.
Como Hércules, talando as nossas terras,
Os melhores matara, e eu só restasse
Dos filhos doze de Neleu valentes,
Da míngua nossa e dano os lorigados
Ultrajantes Epeus escarneciam:
Meu pai quatro frisões mandara aos jogos
Disputar uma trípode, e os reteve
O rei de Elide Augeias; triste o auriga
Veio contá-lo. Então Neleu, da afronta
Picado, reservou com seus pastores
Em boiadas e greis trezentas reses,
Justa porção distribuindo ao povo;
Mas ao terceiro dia, ao celebrarmos
Pela cidade aos numes sacrifícios,
Tropa eqüestre e pedestre eis nos assalta,
E ambos os Moliões, inda mocinhos,
Pouco versados em Mavórcias lides.
A íngreme Trioessa à margem fica
Do Alfeu, na extrema da arenosa Pilos:
Na ânsia de sovertê-la, a sitiavam;
Mas de noite, a campina ao traspassarem,
Desce a Pilos Minerva, incita e ajunta
Ávida gente a pelejar disposta.
Neleu me crê bisonho e o coche oculta;
E a pé mesmo, entre os nossos cavaleiros,
Me assinalei, guiado por Tritônia.
Deságua o Minieio e banha Arena,
Onde a Aurora esperávamos celeste
E afluíam peões. O dia em meio,
Ante o Alfeu todo o exército, ao Supremo
Feitas gratas ofrendas, imolamos
Um touro ao santo rio, outro a Netuno,
Juvenca indômita à cerúlea Palas,
E ceiamos em ranchos e dormimos
A borda armados sempre. Aquele assédio
Vastadores Epeus mais estreitavam;
Porém com Márcio arrojo os prevenimos:
Mal assomava o Sol, a Jove e a Palas
A suplicar, travamos a batalha.
Eu por Múlio a encetei, genro de Augeias,
Que a filha primogênita esposara
Flava Agamede, a qual da terra inteira
As salutares plantas conhecia:
De um bote, ao me encarar, na areia o estiro;
Salto-lhe ao coche, e o troto antessignano.
Vendo os Epeus dos équites caído
O chefe mais belaz, sem ordem fogem.
Qual furacão ruí de lança em punho;
Coches tomei cinqüenta, e a cada coche
Derribei dois varões que o pó morderam.
De Actor e Molion prostara os filhos,
Se, envoltos em negrume, o avô Netuno
Amplo-dominador os não salvasse.
Deu-nos vitória o Céu: matando fomos
E armas colhendo no alastrado campo;
À cereal Buprásio, à pétrea Olênia,
E Alésio até Colona, os perseguimos,
Donde gente e corcéis retirou Palas;
E um lá inda imolei. De volta a Pilos,
A Jove entre imortais rendiam graças,
Entre homens a Nestor. Fui tal no esforço.
“Mas para si guarda o valor Aquiles;
Há de pesar-lhe o exército perder-se.
Quando, amigo, eu e Ulisses pela Acaia
Levantávamos tropas, no agasalho
Das casas de Peleu, de Aquiles junto
Nós te encontramos e a teu pai Menetes:
Num claustro o ancião Peleu bovinas coxas
Ao tonante queimava, de áurea taça
Roxo vinho entornado em rubras chamas;
Vós preparáveis suculentas carnes.
Alvoroçado Aquiles, pela destra
Nos trouxe do vestíbulo, e assentados
Nos regalou com pródiga hospedagem.
Repleta a fome e a sede, a minha arenga
O ardor vos avivou. Peleu de acordo,
Vimo-lo ao filho prescrever que fosse
Pugnaz, constante, superior a todos.
O Actórides Menetes, a Agamêmnon
Ao te expedir, clamava aos olhos nossos:
– Meu filho, em geração te excede Aquiles,
Sem par na valentia; és mais idoso,
Mais prudente: amoesta-o, e será dócil. –
Tu paternos preceitos olvidaste;
Ora, adverte esse herói: quem sabe se hoje
Um nume há de ajudar-te a comovê-lo?
Fazem muito os conselhos da amizade.
E se um presságio o espanta, e à mãe augusta
Jove algum declarou, mande-te ao menos
Dos Mirmidões à testa a esperançar-nos.
Seu belo arnês te empreste; que, os Troianos
Contendo a semelhança, da fadiga
Os mavórcios Aqueus talvez respirem,
E um respiro aproveita. A frescas tropas,
No primo choque, os inimigos lassos
Fácil é rechaçar das naus e tendas.”
Disse; ao longo da praia, comovido,
Corre em busca do Eácida Patroclo.
À nau se apropinquou do sábio Ulisses,
Onde era a cúria e o foro e as santas aras:
Ia ali da frechada coxeando
O destemido Eurípilo Evemônio,
Em suor testa e espádua, negro o sangue
A merejar, mas inconcusso o peito.
Exclamou condoído o herói Menécio:
“Ai! tristes nossos príncipes e cabos,
Que assim, longe da pátria e amigos lares,
Cães cevareis em Tróia! inda os Aquivos,
Dize, aluno de Jove, inda resistem,
Ou da lança de Heitor serão domados?”
E ele: “Excelso Patroclo, é sem refúgio,
Vão cair ante a frota os Gregos todos.
Quantos bravos havia estão feridos;
Cresce a força Troiana e cresce a fúria.
Mas tu salva-me e leva ao meu navio;
Tira-me a seta, em banho morno a chaga,
Asperge os lenimentos que de Aquiles
Aprendeste, e que afirmam lhe ensinara
Quiron dentre os Centauros o mais justo:
Pois dos médicos dois, se não me engano,
Na tenda sua Macaon de auxílio
De mão hábil carece, e Podalírio
O atroz Marte sustém no campo Teucro.”
“Herói, torna o Menécio, que nos cumpre?
Que será? Com recado para Aquiles
Vou do Gerênio, dos Argeus custódio;
Mas deixar-te não quero ao desamparo.”
Ei-lo, ao colo o transporta e o põe na tenda,
Onde em couro taurino o deita o pajem;
Sacando-lhe a punhal a acerba farpa,
O cruor tetro lava, e machucada
Amargosa raiz à coxa aplica;
Veda o sangue, a dor calma, o golpe seca.

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