IX

Ronda-se a praça. Os Dânaos sobre-humano
Abalo invade, irmão de frio medo;
Agro luto os fortíssimos domina.
Qual da Trácia a roncar Zéfiro e Bóreas,
Incha a piscoso ponto, e escarcéu turvo
Em monte arqueia e de alga inunda as praias;
Tal borrasca aos Aqueus revolve o seio.
Chagado n’alma o Atrida, arautos manda
Convocar em segredo a flor dos sócios,
E ele alguns sem estrépito procura.
Mal abanca o tristonho juntamento,
Ergue-se, e como de árdua penha brota
Negro olho d’água, em fio lagrimando,
Fundo suspira: “Príncipes e amigos,
Enredou-me o Satúrnio em lance infesto!
Para a Grécia anuiu que eu só voltasse
Depois de Ílio assolada, e quer arteiro
Que, perdido o meu povo, inglório volte?
Pois vença o prepotente, que há prostrado
Muitas, e muitas prostrará cidades:
Ele extirpar nos veda a excelsa Tróia;
Naveguemos à pátria, eia, fujamos.”
Silêncio em todos concentrou-se mudo,
Que Diomedes quebranta belicoso:
“A tal delírio oponho-me, Agamêmnon.
É jus deste conselho, e não te agraves.
Perante jovens e anciãos, primeiro
Tu de ignavo e cobarde me argüiste:
O cetro e mando sumo deu-te o filho
Do cálido Saturno, mas negou-te
O maior dos poderes, a coragem.
Louco? E esperas dos Graios a fraqueza
De que os apodas? Se fugir cobiças,
Foge; tens franco o mar, tens perto os vasos
Que alterosos da Argólida esquipaste.
Para exício de Tróia os mais cá ficam,
E caso os Dânaos contamine o exemplo,
Sós Diomedes e Estênelo bastamos
A destruí-la: um nume nos protege.”
O entusiasmo estronda, e Nestor surge:
“És, Tidides, sem-par no márcio jogo,
E entre os eqüevos ótimo discorres:
Aqueu não há quem impugne e te conteste,
Mas nem tudo previste. Bem puderas
Ser meu filho menor, e a reis comados
Falastes sério. Destas cãs blasono,
E opinarei do mais: nenhum rejeite,
Nem o máximo Atrida, meu conselho;
Só deseja a intestina horrenda guerra
Homem sem lar, sem teto, sem família.
Mas ao repasto obriga a opaca sombra;
Fora, esperta vigia e sentinelas:
Isto encomendo aos jovens, que ordená-lo
Toca-te, ó rei dos reis. É bom convides
Os mais provectos: vinhos te sobejam,
Que à Trácia em gregas naus contínuo exporta;
O necessário tens, em cópia servos.
Então se delibere, e o melhor colhas:
Pouca é toda a prudência, que as fogueiras
Dos inimigos junto às naus flamejam.
Ah! quem se alegrará, quando esta noite
Vai ressalvar o exército ou perdê-lo.”
Ouvem-no, a guarda aprestam: sete os cabos,
O maioral Nestório Trasimedes,
Os mavórcios Ascálafo e Jalmeno,
Afareu, Merion, Deipiro, o nobre
Licomedes Creôncio, rege hastatos
Cada qual cem guerreiros; que, de vela
Por entre o muro e o fosso iluminados,
Curam da ceia. Aos próceres o Atrida
Abre a tenda e os regala; os convidados
Apegam-se às gostosas iguarias.
Cheio o apetite, enceta o que antes sábio
Tanto agradara, e seu discurso trama:
“Dos varões glorioso augusto chefe,
Por ti começo e acabo em ti: que Jove
Dos povos concedeu-te a monarquia:
Cabe-te expor aos príncipes teu voto,
E o deles atender, se um mais discreto
Se te inspirasse. Escuta-me e decide.
Não pode haver mais salutar aviso
Que este que em mim pondero, não só de hoje,
Mas dês que, ó divo garfo, em sanha Aquiles,
Da tenda arrebataste-lhe Briseida,
Contra o nosso querer e meus esforços:
Tu seu prêmio reténs; com dons e os obséquios
De amaciá-lo o meio excogitemos.”
“Sim, prudente ancião, responde o Atrida,
Errei, confesso: o herói de Jove amado
Batalhões equivale, e em honra sua
Jove doma os Aqueus; mas, em desconto,
Meus presentes magníficos o amolguem,
E enumerá-los vou: trípodes sete
Puras da chama, de ouro dez talentos,
Caldeirões vinte esplêndidos, com doze
Ungüíssonos que ao páreo vencedores,
Me hão tais prêmios ganhado, que seu dono
Do precioso metal não terá míngua.
Sete acrescentarei prendadas moças,
Que ele apresou na populosa Lesbos
E entre as escravas elegi mais guapas.
Irá Briseida mesma; e nunca, eu juro,
Fui com ela varão, toquei seu leito.
Isto já já; mas, quando apraza aos deuses
Demolir as Priâmeas fortalezas,
O espólio ao dividirmos, de ouro e bronze
As naus cumule, e Teucras vinte escolha
As mais belas depois de Argiva Helena.
Se Argos Acaica ubérrima atingirmos,
Seja meu genro, e igual ao próprio Orestes,
Que, único herdeiro, na abundância medra.
Hei filhas três no vasto meu palácio,
Crisotêmis, Laódice e Ifianassa:
A de seu gosto, sem que a dote, leve
À casa de Peleu; cá me encarrego
De a dotar, como nunca o foi donzela:
Célebres lhe darei cidades sete,
Cardâmile, Enope, Hira verdejante,
Risonha Epéia, pascigosa Anteia,
Pédaso uvífera, a sagrada Feres;
Todas não longe da arenosa Pilos
E à beira-mar, em gado e armento opimas,
Têm gentes que o honorem como a nume,
E amplos tributos a seu cetro paguem.
Isto lhe oferto, se remite as iras:
Ceda exorável, que Plutão por duro
O deus é que os humanos mais odeiam;
Ceda, que sou do que ele mais potente;
Ceda, que sou do que ele mais idoso.”
Inda o Gerênio: “Soberano egrégio,
Dons não despiciendos lhe destinas.
Legados, sus, ao pavilhão de Aquiles;
Aqui mesmo os nomeio, e não recusem:
Fênix guie, de Júpiter privado,
O magno Ajax, o sapiente Ulisses,
E arautos Hódio e Euríbates com eles.
Águas às mãos, freio às línguas, deprequemos;
De nós se comisere o deus supremo.”
O aviltre aceitam: linfa arautos vertem,
E de urnas coroadas vertem servos
Dos auspicantes pelos copos vinho.
Fartos de libações, iam saindo;
Nestor a cada um lançando os olhos
E ao Laértides mais, no empenho os firma
De abrandar o magnânimo Pelides.
Pelas do mar flutissonantes praias
Ao padre Enosigeu vão suplicando
Que as entranhas do Eácida comova.
Já no arraial dos Mirmidões o encontram
A recrear-se na artefata lira,
Que travessa une argêntea, insigne presa
Dos raros muros d’Etion: façanhas
De valentes cantava, e só Patroclo
Tácito à espera está que finde o canto.
Chegam-se, à testa Ulisses; e o Peleio
Em pé, na sestra a lira, estupefato,
Com seu fido consócio, as destras cerra:
“Que urge? A que vindes? Bem que irado, amigos,
Exulto ao ver os Dânaos que mais prezo.”
À tenda eis se encaminha; sobre escanos
De purpúreo tapete os acomoda,
E ao seu dileto: “Na maior cratera
Tu mescles do mais puro e aprontes copos;
Caríssimos varões meu teto acolhe.”
O camarada obedeceu contente.
Ele, ante o lar, em cúpreo largo disco
Dorso depôs de ovelha e gorda cabra
E de um cevado os suculentos lombos:
Automedon segura, o herói perito
Em pessoa esposteja, enrosca e espeta;
O Menécio deiforme atiça o fogo:
Lânguida a flama, ao rúbido brasido
Sobre as lareiras os espetos vira,
De sal tempera-os sacro; todo assado
Põe da cozinha à mesa, e o pão ministra
Em lindos canistréis. Do Ítaco em face
Toma a parede e as carnes trincha Aquiles;
O sacrifício incumbe ao companheiro,
Que ao fogo atira as divinais primícias.
Deitam mãos dos manjares os convivas.
Já satisfeitos, cabeceia a Fênix
Ajax; Ulisses que o sinal percebe,
Rasa o copo e alça o brinde: “Aquiles salve!
Ou do Atrida na tenda, ou nesta agora,
Semelhantes festins nos não falecem,
Onde pratos gratíssimos abundam;
Mas os dissaboreia o extremo risco
Da instruta armada, se ó de Jove aluno,
Da tua intrepidez te não revestes.
Já da trincheira à vista acampam feros
Os Teucros e os longínquos aliados,
Que, acesas mil fogueiras, se gloriam
De entrar sem resistência em nossos vasos.
O Satúrnio propício lhes troveja:
Nele estribado e em si, terrível senho
Rola Heitor, e sanhudo não faz caso
De homens nem de outros numes; freme e invoca
O lento albor; às naus jura os aplustres
Mesmo romper, despedaçar no incêndio
Em cinza e fumo atônitos Aquivos.
Tremo que se efetue essa ameaça;
Que, longe das fecundas pátrias veigas,
O céu nos fade a perecer em Tróia.
Sus, bem que tarde, acode a aflita Grécia;
Dor sentirás depois se a desamparas,
Pois o mal consumado é sem remédio:
Salva a tempo os Aqueus da fatal hora.
Peleu de Ftia, amigo ao despedir-te,
Para Agamêmnon: – Filho meu, bradou-te,
Minerva e Juno, se o quiserem, força
Dêem-te e valor; sopeia tu no peito
O orgulho e humano sê, de rixas foge,
Por que moços e velhos te honrem sempre. –
De tal pai tais conselhos esqueceste:
Lembrem-te, enfreia as iras; se o fizeres
Provarás as larguezas de Agamêmnon.
Ouve os dons que, em presença da Assembléia,
O rei te destinou: trípodes sete
Puras da chama, de ouro dez talentos,
Caldeirões vinte esplêndidos, com doze
Ungüíssonos que, ao páreo vencedores,
Lhe hão tais prêmios ganhado, que seu dono
Do precioso metal não terá míngua.
Sete acrescentará prendadas moças
Que em Lesbos apresaste populosa,
E entre as escravas elegeu mais guapas.
Virá Briseida mesma; e, jura, nunca
Foi com ela varão, tocou seu leito.
Isto já já; mas, quando apraza aos deuses
Demolir as Priâmeas fortalezas
O espólio ao dividirmos, de ouro e bronze
As naus cumules, Teucras vinte escolha
As mais belas depois de Argiva Helena.
Se Argos Acaica ubérrima atingirmos,
Serás seu genro e igual ao próprio Orestes,
Que, único herdeiro, na abundância medra.
Há filhas três no vasto seu palácio,
Crisotêmis, Laódice e Ifianassa:
A do teu gosto, sem que a dotes, leves
À casa de Peleu; fica-lhe o encargo
De a dotar, como nunca o foi donzela:
Célebres haverás cidades sete,
Cardâmile, Enope, Hira verdejante,
Risonha Epéia, pascigosa Anteia,
Pédaso uvífera, a sagrada Feres;
Todas não longe da arenosa Pilos
E à beira-mar, em gado e armento opimas,
Têm gentes que te honorem como a nume,
E amplos tributos a teu cetro paguem.
Tanto promete, as iras se te aplaquem.
Mas, se aborreces com seus dons o Atrida,
Os consternados arraiais te movam,
Que hão de às estrelas elevar teu nome.
Anda, imola esse Heitor, que ousa afrontar-te.
Raiva e alardeia que nenhum o iguala
De quantos Gregos nossas naus trouxeram.”
E o fogoso Pelides: “Sem rebuço,
Dial sangue e astutíssimo Laércio,
Declaro-te o que sinto, em que hei sentado;
Nem mais teimem comigo, nem me azoinem.
Qual do Orco as portas, abomino aquele
Que de boca desmente o oculto n’alma.
Descubro a minha: o Atrida não me dobra,
Nem outro Grego, a tanto esforço ingratos
O acre ou forte em conflito, o imbele ou frouxo
Quinhão parelho têm e as mesmas honras;
Têm o enérgico e o mole igual sepulcro.
Que tirei de cruéis padecimentos,
De infindos prélios, de hórridos perigos?
Ave sou, que afamada olvida as penas,
Pesquisando o cibato a implumes filhos.
Noites insones, sanguinários dias
Curti sem conto a contrastar guerreiros
Pelas mulheres vossas. Praças doze
Eu devastei por mar, onze por terra
Nessas veigas Troianas. Vim de alfaias
E espólios carregado, e à vista os punha
De Agamêmnon; que a bordo os ferrolhava,
E poucos repartia a reis e a cabos.
Estes os têm consigo: eu só dos Gregos,
Fui da querida minha defraudado…
Pois que durma e deleite-se com ela.
Por que esta guerra? O exército Agamêmnon
Por causa não chamou da pulcra Helena?
Atridas sós entre os falantes amam?
Ama a consorte sua o reto e probo;
Eu muito amava aquela, embora serva.
Arrancou-ma falaz: pois basta, cesse
De me tentar em vão. Contigo e os outros
Busque, Ulisses, as naus livrar do incêndio.
Sem mim já fez milagres, celsas torres,
Profundo e largo fosso e paliçadas:
Nem pode assim de Heitor suster o choque!
Do fero Heitor, que nunca, eu posto em campo,
Quis longe pelejar das portas Ceias,
Nem da faia passar! um dia apenas
Meu ímpeto arrostou; salvou-se a custo.
O herói não mais profligo; e na alvorada,
Assim que imole à corte e ao rei celeste,
Meus baixéis bem providos se o desejas,
Verás em nado, e ao som da ardente voga
O piscoso Helesponto irem sulcando.
Com favor de Netuno, à luz terceira
Seremos nas de Ftia amigas várzeas.
Riquezas lá deixei, partida infausta!
Bronze e ouro, do sorteio, airosas moças,
Ferro polido ajunto-lhes; que o dado
O magnânimo Atrida retomou-me.
Repete-lhe isto às claras ante os Gregos,
Por que todos se indignem, se impudente
Conta iludir algum. Protervo e ousado,
O descoco não teve de encarar-me.
Nem mais consulto, nem com ele trato:
Enganou-me, ofendeu-me; é de sobejo.
De mim descanse; ao precipício corra,
Que o privou da razão previsto Jove.
Como a escravo o desprezo e os dons lhe odeio:
Nem que o décuplo e em dobro me ofertasse
Do que amontoa e cobiçoso espera,
Quanto Orcómeno importa, quanto a Egípcia
Hecatômpila Tebas entesoura,
Que, duzentos campeões de cada porta
Vazando, carros vinte mil despede;
Nem que prometa os mares e as areias,
Me há de acalmar, sem que me pague o insulto
Gota por gota. A filha, não lha quero,
Vênus fosse em beleza, em lavor Palas:
Aspire a genro de mais polpa e vulto.
A preservar-me o Céu, de Hélade e Ftia
Peleu me escolha algumas dentre as virgens
De príncipes colunas dos Estados,
E a que eu prefira me será consorte:
O coração me pede grata esposa,
Que se afeiçoe aos prédios meus paternos.
São à vida inferiores os tesouros
Que, antes do cerco, a populosa Tróia
Em si continha, e as do vibrante Febo
Da sáxea Pito do marmóreo templo:
Reconquistar podemos bois e ovelhas,
Trípodes e frisões de ruiva crina:
Mas do encerro dos dentes a alma nossa
Fora uma vez, não se recobra nunca,
A mãe déia argentípede o meu duplo
Fado abriu: se debelo a grã cidade,
Não regresso, mas compro glória eterna;
Se torno ao doce ninho, murcha a glória,
Terei velhice longa e fim tardio.
Os mais que voguem: não vereis o termo
De Ílio escarpada; o mesmo Altitonante
A mão lhe estende e exalta-lhe a coragem.
Ide anunciar aos próceres, Aquivos,
É dever de legados, que outro plano
Tracem de proteger as naus e as tropas:
Este falhou, persisto incontrastável.
Pernoite Fênix, e amanhã me siga,
Por gosto e não forçado, aos pátrios lares.”
Tal dureza os contrista, e calam todos;
Mas geme e chora o venerando Fênix,
De mágoa e susto pela frota Argiva:
“Se furente ir cogitas, sem livrares
De ígnea peste os baixéis, como aqui, filho,
Me abandonas? Contigo, estranho jovem
À guerra e discussões que heróis afamam,
Longevo o bom Peleu para Agamêmnon
De Ftia me expediu, que na loqüela
Te amestrasse e no obrar: de ti repugno
Desunir-me, ó querido, nem que um nume
Conceba remoçar-me e enverdecer-me,
Qual saí de Hélade em beldades fértil,
Do Ormenida Amintor pai meu fugindo.
Por flava pelice este a esposa ultraja;
Para ter a comborça em asco o Velho,
A mãe súplice instou-me a conhecê-la,
E fi-lo assim; mas Amintor o aventa,
Ruge e impreca às Eumênides que nunca
Um nado meu nos joelhos se lhe pouse:
Maldição tal os Céus, o inferno, Jove,
A tremenda Prosérpina, escutaram.
Então (quanto o furor nos cega e arrasta!)
Pérfido eu quis… O braço um deus reteve,
E me salvou de horrendo parricídio.
Para ficar no antigo irado alvergue
Faltou-me coração. Parentes obstam
E amigos a rogar; degolam pretos
Bífidos bois e ovelhas vicejantes,
Ao fogo pelam saginados porcos,
Os cangirões paternos se esvaziam.
Dormindo ao pé de mim com luz constante,
Por turno, um vela ao pórtico do pátio,
Outro ao vestíbulo ante a minha alcova.
Décima noite negrejando, alerta
Forço e desfecho a porta o claustro pulo,
Sem que o percebam guardas, nem mulheres,
Corro a Hélade; em Ftia pecorosa
Tratou-me o rei bem como único herdeiro
Que em vastas possessões tardio houvesse;
Nos confins de Ftiótide, opulentas
Lavras doou-me; os Dólopes governo.
Eu te criei com mimo e igual aos deuses;
Nem com outro ir querias a banquetes,
Ou em casa comer, sem que a meu colo
Te saciasse partindo as iguarias,
Regrando o vinho, que em vestido e seio
Me arremessavas, caprichoso infante.
Por ti que sofrimentos, que fadigas!
Eu sem prole em ti via, ó alma grande,
Filho que me valesse em dúbio transe.
“Doma-te, essa aspereza mal te assenta:
Rendem-se os deuses de maior virtude,
Glória e poder; acalma-os o culpado
Com libações e votos e holocaustos.
Gérmen do Eterno, as enrugadas Preces,
Coxas, vesgas, pós Ate se apressuram;
Ate incansável, de robustas plantas,
Remexe a terra e a vexa; atrás, as Preces
A quem quer que as invoca o mal temperam:
Ai do que as repelir! Subindo ao padre
Exoram que Ate mesmo o fira e puna.
Curva-te, Aquiles, do Satúrnio às filhas,
Como os demais heróis também se curvam.
Se, obstinado, o Atrida nem presentes
Fizesse ou dons futuros, que amainasses
Não te pedira, posto que de auxílio
Precisamos os Gregos; mas dá muito,
Muito promete, envia a suplicar-te
Os do exército eleitos que mais amas;
Nossos passos respeita e nosso empenho.
A pertinácia tua era escusável;
Mas de priscos varões nos conta a fama
Que, se os picava a cólera, exoráveis,
A brindes e razões eram sensíveis.”
“Ora, amigos, me ocorre um velho exemplo.
Na amena Calidona, encarniçados
Batiam-se os Curetes e os Etólios,
Estes por defender, ardendo aqueles
Com fúria marcial por devastá-la.
Da auritrônia Diana foi castigo,
Porque Eneu, por olvido ou negligência
Lhe falhou com primícias de agros férteis,
Nem de outros imortais nas hecatombes
A aquinhou: dorida a casta Febe
De alvos colmilhos despediu javardo,
Que o régio campo estraga, árvores prostra,
Fruto e raízes confundindo e flores.
Das vizinhanças, Meleagro Enides
Chusmas de cães reúne e caçadores
Para o poder matar; tamanha fera
Muitos mandou primeiro à triste pira.
A deusa entre os Etólios e os Curetes,
Pela cabeça horrenda e hirsuta pele,
Move guerra e tumulto. Enquanto o Marte
Enides combatia, inda que imensos,
O arraial os Curetes não largavam;
Mas, de ira, que incha o peito aos mesmos sábios,
Contra a mãe sua Alteia, em ócio esteve
Junto à mulher Cleópatra, progênie
Da Evemina Marpissa, cujo esposo
Idas, então neste orbe o mais valente,
Pela de pé mimoso casta ninfa
De arco arrojou-se a Febo: Alcion em casa
A apelidaram, pois da mãe saudosa,
Que roubado lhe tinha o altifrecheiro:
Como Alcion gemente suspirava.
Ele nutria a sanha, porque Alteia
Rogava aos numes, e das mãos ferindo
A alma terra e de lágrimas lavada,
Posta em joelhos, imprecava a Dite
E à medonha Prosérpina que a vinguem
Da morte dos irmãos no próprio filho:
Do Erebo fundo Erínis despiedosa,
Pelas trevas errando, ouviu-lhe as pragas.
Às portas rui o estrondo e abala as torres:
Disputam-lhe anciãos e sacerdotes
A implorar que rechace os inimigos,
Que no melhor da Calidona escolha
Cinqüenta jeiras de fecundo prédio,
Metade em vinhas e metade em lavras.
Monta-lhe ao quarto o grave Eneu, cerrados
Os batentes sacode e observa o filho;
Arrependida a madre e irmãs suplicam,
E companheiros e íntimos amigos:
Ele tenaz renui, até que soube,
No quarto os gritos a dobrar e os golpes,
Dos muros a escalada e dentro o fogo.
Aqui chorando o exora a bela esposa,
Da cativa cidade os males pinta,
Arquejando os varões, em cinza as casas,
Presas virgens de rojo e as mães e os filhos.
Tanto horror o comove; corre, veste
Brilhantes armas, os Etólios salva
Por ti, que à vista pulcros dons não tinha.
Nenhum demônio, amigo, assim te influa;
É pior socorrer as naus combustas:
As dádivas recebe e vem conosco,
Um deus serás aos Dânaos; se as recusas,
Mas te demoras, menos honras alcanças,
Bem que essa invicta mão remova a guerra.”
Ei-lo então: “Fênix pai, dos Céus benquisto,
Honras escuso; espero-as só de Jove,
Que há de abordo reter-me, enquanto alento
Haja o peito e sustentem-se os joelhos.
No imo isto agora imprime: não me turbes
Com mesto choro por amor do Atrida;
Quero-te muito, em ódio não me sejas;
A ti cabe agravar a quem me agrave.
Estes que voltem, reina tu comigo.
Meiado o meu poder, meiada a glória:
Terás mórbida cama, e à luz da aurora,
Se ficamos ou não, consultaremos.”
A Patroclo eis acena estenda o leito,
A fim que os dois mais cedo se retirem.
“Sábio Ulisses, rebenta Ajax divino,
Laércio nobilíssimo, a caminho;
Do bárbaro orgulhoso nada obtemos.
Cumpre ao congresso, que por nós aguarda,
Levar a atroz resposta, aos mesmos dada
Que sem igual na frota o veneramos.
Do irmão, do morto filho aceita a paga,
Numa cidade congraçados vivem
Ofendido e ofensor. No âmago alojas,
Pelides sevo, um coração de bronze,
Por conta de uma escrava, e te ofertamos
Hoje beldades sete e mil presentes!
Bane o despeito, reverente aos lares;
Escolha dos Aquivos, tens em casa
Amicíssimos teus que mais estimas.”
“Bem dizes, torna Aquiles, generoso
Príncipe Telamônio; mas a bílis
Se me intumesce ao recordar a afronta
Que em público me fez o audaz Atrida
Como se eu fora ignóbil vagabundo.
Porém desempenhar ide a mensagem:
A sanguinosa guerra não me importa,
Antes que aos Mírmidões o herói Priâmeo
Com incêndio e matança o campo ataque;
Da tenda e negra popa aqui pretendo
Para sempre extinguir-lhe o márcio fogo.”
Duplicôncova taça os dois empunham,
Libam, vão-se, e o Laércio precedia.
Servos e servas, de Patroclo ao mando,
Alastram cama de ovelhumes peles,
Fina alva tela e tinta cobertura;
Té que raie a manhã, deitou-se Fênix.
Dorme Aquiles no fundo com Diomeda,
Filha de Forbas de rosadas faces,
Cativa em Lesbos. Dorme além Patroclo
E Ífis airosa, que lha trouxe o amigo
Do íngrime Ciros, de Enieu cidade.
Chegando aqueles ao real, os Dânaos
Recebem-nos em pé com áureas taças,
E Agamêmnon primeiro os interroga:
“Fala, adorno da Grécia, ó nobre Ulisses,
Quer das naus afastar o hostil incêndio,
Ou teimoso na cólera persiste?”
“Na cólera persiste, e inda mais agora,
O paciente Ulisses respondeu-lhe;
Teus dons e a ti, chefe de heróis, desdenha:
Diz que resolvas tu, com outros Graios,
Como o Exército nosso e a frota escudes.
Vogar ameaça no luzir da Aurora,
E aconselha aos demais também naveguem
À pátria cara: o termo não veremos
De Ílio escarpada: o mesmo Altitonante
A mão lhe presta e exalta-lhe a coragem.
Ajax o testemunha e os dois arautos,
Prudentes ambos. Lá pernoita Fênix,
E Aquiles, sem forçá-lo, prescreveu-lhe
Que em remeiros baixéis com ele parta.”
Consterna-os a repulsa e calam todos;
Mas Diomedes belaz: “Com dons infindos,
Oh! nunca, rei sublime, o suplicaras!
Era insolente, e refinou soberbo.
Ou fique ou vá, nossa missão cumpramos:
Peleje quanto queira e um deus lho inspire.
Nisto ora concordar: refeitos vamos
De Baco a Ceres, de homens força e brio,
Nos recostar; e, assim que a dedirrósea
Aurora brilhe, eqüestre e pedestre
Ante a frota os perfiles e acorçoes,
E tu mesmo combatas na vanguarda.”
O équite exímio em roda excita aplausos:
Fazem-se as libações; na tenda sua
Cada qual em descanso adormecia.

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